Setembro chega e, com ele, somos convidados a falar sobre saúde mental, prevenção ao suicídio e a importância de cuidar. Mas, embora o mês seja um momento importante para ampliar essa conversa, acredito que ela não precisa terminar quando setembro acabar. O cuidado com a saúde mental não deve se limitar a campanhas, palestras ou frases bonitas, ele exige algo que nem sempre é simples, que é, a disposição para escutar aquilo que não é fácil de ser traduzido em palavras.
Sendo uma pessoa que trabalha na área de Recursos Humanos e que também está se graduando em Psicologia, tenho aprendido, ao longo da minha trajetória acadêmica, profissional e pessoal, que falar sobre sofrimento humano exige, antes de tudo, sensibilidade para reconhecer que cada pessoa carrega uma história que nem sempre conseguimos enxergar. E uma das coisas mais importantes que aprendi nesse caminho é que nem todo sofrimento é visível. Aprendemos a reconhecer com mais facilidade quando alguém está com febre, quando está machucado ou quando precisa procurar um médico, diante de um sintoma físico, geralmente sabemos que existe algo que precisa ser investigado. Quando a dor acontece no campo psicológico, porém, nem sempre existem sinais tão evidentes, esse sofrimento pode levar tempo para ser reconhecido, compreendido e até mesmo comunicado por quem o vivencia.
Às vezes, ele aparece como irritação, falta de disposição, cansaço constante, afastamento, silêncio ou uma mudança abrupta no comportamento. Em outras situações, pode não se manifestar de uma maneira que as pessoas ao redor consigam perceber. Há quem continue sorrindo, conversando, trabalhando e cumprindo suas responsabilidades enquanto enfrenta, em silêncio, algo que não sabe como compartilhar e há também quem não consiga mais manter a mesma rotina, mas não encontre palavras para explicar o que está acontecendo. Por isso, é importante compreender que o sofrimento psicológico não segue um único padrão. Não existe uma maneira universal de demonstrar que não estamos bem, assim como nem sempre conseguimos identificar o que sentimos no momento em que estamos atravessando uma situação difícil. Às vezes, a própria pessoa precisa de tempo para entender o que está vivendo e reconhecer que precisa de ajuda.
Essa reflexão se torna ainda mais importante quando pensamos na maneira como nos relacionamos com o trabalho e com as expectativas que existem sobre nós. Vivemos em uma cultura que frequentemente valoriza a produtividade, a força e a capacidade de dar conta. Somos incentivados a comemorar nossas conquistas, superar obstáculos, cumprir metas e buscar constantemente uma versão melhor de nós mesmos. No ambiente corporativo, essas expectativas podem aparecer de diferentes formas: na necessidade de entregar resultados, cumprir prazos, participar de reuniões, responder às mensagens, manter o ritmo das atividades e estar presente, mesmo quando estamos atravessando momentos difíceis.
Existe uma expectativa, muitas vezes silenciosa, de que as pessoas continuem funcionando independentemente do que estejam vivendo. Que sigam cumprindo suas responsabilidades, mantenham o desempenho esperado e consigam separar aquilo que acontece em suas vidas pessoais daquilo que é exigido no trabalho, mas funcionar não significa necessariamente estar bem. Uma pessoa pode continuar entregando resultados, participando de reuniões e cumprindo suas metas sem que isso signifique que esteja emocionalmente bem, pode estar presente fisicamente e, ainda assim, sentir-se distante de tudo aquilo que faz, pode continuar desempenhando suas funções enquanto enfrenta um período de tristeza, ansiedade, esgotamento ou outras dificuldades que não são percebidas por quem está ao seu redor. Não basta somente dar conta de tudo se, no meio de tantas responsabilidades, deixamos de encontrar alegria nas coisas que antes faziam sentido para nós.
Isso não significa que o trabalho seja, necessariamente, a causa do sofrimento ou que toda dificuldade emocional esteja relacionada à vida profissional. A saúde mental é atravessada por diferentes aspectos da nossa existência, como as relações familiares, as condições de vida, as experiências pessoais, os vínculos afetivos e o contexto social em que estamos inseridos. Mas significa reconhecer que o ambiente de trabalho também faz parte da nossa vida e que a maneira como nos relacionamos nele pode contribuir para o nosso bem-estar ou para o nosso sofrimento. Então o cuidado com a saúde mental precisa ser compreendido como algo que vai além de ações pontuais. Não devemos falar sobre o assunto só em setembro, mas sim construir ao longo do ano, relações e ambientes nos quais as pessoas possam se sentir respeitadas, acolhidas e reconhecidas em sua humanidade.
No ambiente corporativo, essa reflexão ganha dimensão, porque passamos uma parte significativa da nossa vida trabalhando ao lado de outras pessoas. Conhecemos suas habilidades, acompanhamos seus projetos, celebramos resultados, dividimos desafios e construímos relações que, muitas vezes, ultrapassam as atividades profissionais. Ainda assim, nem sempre conhecemos aquilo que cada pessoa está vivendo para além do que conseguimos enxergar no cotidiano. Somos muito mais do que nossos cargos, nossas entregas e nossos resultados. Antes de sermos profissionais, somos pessoas com histórias, relações, medos, perdas, sonhos, inseguranças e momentos que não aparecem em nenhuma planilha.
Falar sobre saúde mental nas organizações inclui falar sobre a forma como nos relacionamos, sobre a maneira como lidamos com as dificuldades, sobre o espaço que oferecemos para que as pessoas expressem suas necessidades e sobre a importância de reconhecer que cada indivíduo possui uma realidade que não se resume à sua função.
Isso não significa que as responsabilidades e os resultados deixem de ser importantes, mas que eles não devem ser a única medida pela qual enxergamos alguém. Uma organização é feita de pessoas, e cuidar dessas pessoas também envolve compreender que existem momentos em que elas precisam de apoio, de escuta, de compreensão e, em algumas situações, de condições para reorganizar suas demandas e buscar ajuda. Criar um ambiente de trabalho mais acolhedor não significa eliminar todos os desafios ou garantir que ninguém passe por momentos difíceis, é mais sobre reconhecer que o sofrimento faz parte da experiência humana e que a forma como lidamos com ele pode fazer diferença na maneira como as pessoas atravessam essas situações.
Aprendi também que acolher alguém não significa ter a resposta certa para tudo. Não significa saber exatamente o que dizer para fazer a dor desaparecer, nem encontrar uma solução imediata para aquilo que o outro está vivendo. Muitas vezes, acolher é simplesmente conseguir permanecer diante da dor do outro sem tentar apressá-la, diminuí-la ou transformá-la imediatamente em um problema a ser resolvido. É permitir que a pessoa fale no seu próprio tempo, respeitar aquilo que ela consegue compartilhar e oferecer o suporte necessário para que não precise enfrentar tudo sozinha. Nem sempre precisamos dizer alguma coisa. Às vezes, a nossa presença já representa uma forma importante de cuidado ou em outras situações, o que a pessoa precisa é de ajuda para encontrar um caminho, de orientação para procurar um profissional ou simplesmente de alguém que consiga ouvi-la sem transformar sua experiência em julgamento.
Isso também exige que aprendamos a lidar com o desconforto que pode surgir quando alguém compartilha uma dor que não sabemos como acolher. É natural que, diante do sofrimento de uma pessoa querida ou de alguém com quem convivemos diariamente, tentemos encontrar uma solução, oferecer um conselho ou dizer algo que faça tudo parecer mais fácil, mas nem sempre aquilo que dizemos com a intenção de ajudar é o que a outra pessoa precisa ouvir.
Frases como "isso vai passar", "você precisa ser forte" ou "existem pessoas passando por situações piores" podem acabar diminuindo a experiência de quem está sofrendo, mesmo quando são ditas com boas intenções. Cada pessoa vivencia suas dificuldades de uma maneira particular, e comparar sofrimentos não faz com que a dor de alguém se torne menos legítima. Para acolher o outro não precisamos compreender completamente a experiência dele, podemos não saber exatamente o que alguém está sentindo, mas ainda assim podemos demonstrar interesse, escutar com atenção e oferecer apoio sem julgar.
A vulnerabilidade, que por muito tempo pareceu sinônimo de fraqueza, também pode ser uma forma de conexão, quando reconhecemos que não precisamos estar bem o tempo inteiro, abrimos espaço para que outras pessoas também possam reconhecer isso em si mesmas. Afinal, quando encontramos a vulnerabilidade no olhar do outro, também encontramos a humanidade que existe em nós. A nossa vida é feita de encontros, de histórias, medos, perdas, desejos e contradições e, diante do outro, também ampliamos a compreensão sobre a nossa própria existência.
O cuidado com a saúde mental não deve acontecer somente quando chegamos ao nosso limite ou quando a situação já se tornou insustentável. Ele também está nas pequenas coisas, nos gestos que parecem simples, mas que podem fazer diferença na maneira como nos relacionamos. Está em perguntar genuinamente como alguém está e estar disposto a ouvir a resposta, em perceber quando um colega que normalmente participa de tudo começa a se afastar, em respeitar quando alguém diz que precisa de um tempo, em não tratar o sofrimento do outro como exagero, drama ou falta de força, está em oferecer ajuda quando percebemos que alguém está sobrecarregado, em reconhecer o esforço das pessoas e em construir relações nas quais seja possível falar sobre dificuldades sem medo de ser desvalorizado.
Também está em reconhecer os nossos próprios limites, compreender que não precisamos dar conta de tudo e entender que pedir ajuda não diminui ninguém. É importante lembrar que nem sempre haverá sinais evidentes de sofrimento. Por isso, estar atento não significa vigiar o comportamento das pessoas ou tentar interpretar cada mudança como um problema de saúde mental, significa cultivar relações nas quais exista espaço para o diálogo, para a demonstração de interesse genuíno e para a busca de apoio quando necessário.
Quando percebemos que alguém pode estar passando por um momento difícil, uma conversa pode ser um ponto de partida. Podemos nos aproximar, perguntar como a pessoa está, demonstrar que estamos disponíveis para ouvir e, quando necessário, ajudá-la a encontrar os recursos adequados. No ambiente de trabalho, isso também envolve conhecer os canais de apoio disponíveis, respeitar a privacidade de cada pessoa e compreender os limites do nosso papel.
Pedir ajuda é importante, e não precisamos esperar que a situação se torne insustentável para procurar apoio. Psicólogos, psiquiatras, médicos, serviços de saúde, pessoas de confiança e redes de apoio podem fazer parte desse caminho. Em situações de crise ou risco imediato, buscar ajuda profissional e serviços de emergência é essencial.
No Setembro Amarelo, as pessoas costumam promover campanhas, participar de palestras, compartilhar informações e publicar frases sobre a importância da vida. Tudo isso pode contribuir para ampliar o diálogo sobre a prevenção ao suicídio e a saúde mental, mas as angústias humanas não cabem somente nisso. Uma campanha pode abrir espaço para uma conversa, mas é no cotidiano que precisamos encontrar maneiras de sustentar esse cuidado. É na continuidade das relações, na disposição para ouvir e na construção de ambientes mais acolhedores que essa atenção pode se tornar parte da nossa vida.
Por isso, acredito que a conversa sobre saúde mental precisa ultrapassar o calendário e fazer parte da cultura das organizações e das relações que construímos todos os dias. Existe algo que todos nós podemos fazer, independentemente da nossa profissão, do cargo que ocupamos ou da área em que atuamos, que é, estar mais atentos uns aos outros.
Podemos aprender a perguntar com mais presença, ouvir com menos pressa, compreender com mais intenção e acolher sem julgar. Podemos reconhecer que, por trás de cada pessoa que encontramos todos os dias, existe uma história que não conhecemos por inteiro. Uma das reflexões que mais tenho levado comigo é justamente a de que não sabemos completamente a batalha que o outro está enfrentando. E, diante disso, talvez precisemos de menos julgamento e mais escuta, menos respostas automáticas e mais humanidade, menos cobrança para que todos estejam bem o tempo todo.
Setembro Amarelo é um momento importante para falar sobre prevenção ao suicídio, mas o cuidado com a saúde mental é uma construção cotidiana. É criação de espaços onde as pessoas possam falar, reconhecer que não precisam carregar tudo sozinhos e compreender que buscar apoio faz parte da vida.
Neste Setembro Amarelo, fica o convite para que a gente possa olhar um pouco além do que é visível, a perguntar com mais presença, ouvir com menos pressa e acolher com mais sensibilidade. Que possamos construir ambientes de trabalho e relações em que as pessoas sejam reconhecidas não apenas pelo que fazem, mas também pelo que são. Que a saúde mental não seja lembrada apenas em setembro, mas faça parte das nossas conversas, das nossas atitudes e da maneira como escolhemos nos relacionar. E que possamos lembrar, todos os dias, que por trás de cada pessoa existe uma história que não conhecemos por inteiro e o cuidado pode começar quando nos dispomos a escutar.